Cultura

25/05/2016 19:40

'Compreender a África nos coloca no mundo enquanto seres humanos'

Texto: Luciano Aguiar
Fotos: Rosilda Cruz

Zulu Araújo

'Essa é a roda da vida', sentencia Zulu Araújo, de pé sobre o aparato de pedra que ostenta o velho moinho, defronte à Bahia de Todos-os-Santos, no Solar do Unhão. O arquiteto de 63 anos, um dos mais importantes ativistas do movimento negro, foi nosso convidado a contar sobre a experiência de ser um dos 150 escolhidos pela produtora Cine Group a conhecer o seu povo de origem, na África, a partir de um exame de DNA.

Um tanto nostálgico, por ser a enseada vizinha ao local escolhido para a entrevista o lugar onde nasceu e se criou, ele começa por descrever paralelos entre o Solar, ponto de desembarque e comercialização de escravos no passado, e Bibiá, praia na República de Camarões, de onde provavelmente partiram escravizados os seus ancestrais. Zulu esteve no país africano em 2014 para conhecer o povo tikar, a convite da produtora. O registro virou um documentário que abrirá a série Brasil: DNA África, com exibição prevista para o mês de junho.

Diante da passagem do 25 de maio, Dia da África, Zulu ressalta o quão é importante para os afro-brasileiros conhecer de fato as suas raízes, já que não tiveram direito a isso, e expõe erros do passado escravocrata ainda cristalizados no ideário da nação. Ex-diretor de Cultura do Olodum, ex-presidente da Fundação Palmares (2007 a 2010) e hoje diretor da Fundação Pedro Calmon, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, Zulu mira dias de mais consciência e igualdade. Mundo dá volta, camará!

O senhor fez parte de um seleto grupo de 150 afro-brasileiros que puderam descobrir sua raiz africana. Como começou essa história?
ZULU ARAÚJO - A minha participação no documentário começou a partir de uma reunião com o subsecretario geral de África, que é o embaixador Paulo Cordeiro. Em 2012, ele me apresentou uma camaronesa que estava fazendo um trabalho junto a um laboratório norte-americano chamado Africa Ancestre, detentor hoje de 300 DNAs completos de etnias africanas. Nesse primeiro momento, eu não me entusiasmei muito com o projeto, porque o processo, além de ser comercial, me deixava com muitas dúvidas se valeria a pena encarar, porque há muita resistência aqui [Brasil]. Esse tema causa desconforto tanto à comunidade negra quanto aos colonizadores. Aí, veio outra proposta, a da Cine Group, uma empresa que é africana e brasileira. Dessa proposta, eu gostei. Primeiro, porque ele vinculava o teste do DNA à identificação de características culturais que existem no nosso País. Segundo, pela possibilidade de dialogar com a realidade atual do continente africano. Como eu era baiano e dentro da área cultural, a pesquisadora achou que seria interessante que fosse eu o projeto piloto; ir ao continente africano, depois de identificada a minha origem, para gravar o primeiro documentário. São cinco no total. O primeiro terá reprodução nacional e internacional e está previsto para ser lançado em junho. A Globo News e a BBC de Londres compraram a série.

Qual a sua primeira impressão sobre o lugar de onde embarcaram seus ancestrais?
ZULU ARAÚJO - É uma baía, um local supertranquilo. Em Bibiá (praia de Tikar), a primeira coisa que lembrei foi do Solar do Unhão. O mar, as pedras, a baía, as praias belíssimas e o bambuzal. Na minha infância, aqui [Unhão] existia um bambuzal enorme. A comunidade em que nasci (na encosta ao lado do Solar do unhão) emendava lá em cima com os Aflitos. No passado, o Solar do Unhão era senzala, atracadouro, o lugar onde armazenavam os escravos – no porão –, os túneis para fuga – um deles ia até a Igreja da Piedade –, a primeira igreja de Santa Luzia, excomungada pela igreja por conta de um assassinato de um padre, e o lugar de compra e venda dos escravizados, aqui neste pátio, local de muito sofrimento. Era um porto onde escravos eram desembarcados e comercializados. Lá em Tikar tem uma pequena ilha próxima à baía, na qual um barco com aproximadamente 2.500 escravos foram enviados para as Américas. É provavelmente de onde eu devo ter vindo. Os tikar, que ficam no interior do país, foram embarcados por esse porto. Não é um porto muito conhecido no Brasil, nem por antropólogos, nem historiadores. A Unesco, inclusive, o reconheceu agora como patrimônio cultural da humanidade. É um lugar belo, mas sombrio. Tem, na área que antecede a baía, trezentos pelourinhos instalados, onde supliciavam os escravos que tentavam fugir.

O senhor questionou o rei da nação tikar sobre o porquê de eles terem vendido os seus antepassados à escravidão e que, somente no dia seguinte, o rei explicou, em meio a desculpas, que foi melhor terem vendido os patrícios, caso contrário todos seriam mortos.
ZULU ARAÚJO - Olha, a pergunta foi feita para se retirar o véu. As elites africanas são similares à elite europeia. Se houve compra, se houve venda, então quem vendeu? A elite imaginou que obteria lucros, mas foi traída pela própria história e pelo exército, porque chegou um momento em que a Europa não se satisfazia mais com aqueles poucos escravos que eram vendidos. As elites não representam os interesses do povo. Hoje, existem lideranças africanas que estão vendendo seus patrícios da mesma forma. Vendem ouro, petróleo, diamantes e obtém lucros fantásticos sem disponibilizá-los à população, que continua pobre. Isso acontece também no Brasil, na Europa, na Ásia. Todas as lideranças se esquivam, com o argumento de que 'foi melhor do que se ficassem aqui para serem mortos'.

Saber que era de outra nação até então não descrita no mapa da escravidão brasileira não o colocou em cheque com algumas convicções de origem cultural?
ZULU ARAÚJO - Sem dúvida alguma. Eu estava certo que era de origem iorubana. Eu gosto dos ritmos, do toque, sou adepto da religião do candomblé. E ser de outra etnia me trouxe não somente essas dúvidas, mas também outro elemento fundamental: nós, afrodescendentes, precisamos sair do 'achismo', precisamos aprofundar o nosso conhecimento sobre o continente africano, para que a gente possa entender melhor o nosso país. Eu não estou em busca das origens para prazer pessoal, para saber quem era, do ponto de vista individual. Eu quero entender a contribuição civilizatória que os povos africanos deram ao Brasil. E nesse sentido eu preciso saber a origem. Porque, por exemplo, os tikar já eram exímios artesões de máscaras e exímios na fundição do ferro. Ou seja, eles estavam, de um ponto de vista civilizatório, à frente da Europa. Compreender isso nos coloca no mundo enquanto seres humanos. Esse processo escravizatório acabou nos colocando no limbo do processo histórico. Então, isso serve também para que a gente possa afirmar categoricamente que não somos filhos de escravos. Nós somos descendentes de seres humanos que foram escravizados. Eu não estou querendo ser melhor nem pior que ninguém. Quero ser tratado e reconhecido enquanto ser humano, senhor de direitos. Quero ser tratado como brasileiro pleno, cidadão de primeira categoria e não de segunda, como sempre têm nos tratado. Então, foi um aprendizado fantástico, e eu espero que contribua para que a maioria dos afrodescendentes brasileiros também se encontrem.

Seria possível fazer uma investigação genética ainda mais profunda no sentido de provar que a origem de um ser de pele escura é a mesma de um ser de pele branca, por exemplo?
ZULU ARAÚJO - Olha, esses testes já existem. Já foram realizados. O problema é que no Brasil, mestiçagem significa e tem a tradução de não ser negro. Tanto é que você tem 35 classificações para indicar a mestiçagem no Brasil, todas elas negam a condição do negro. Por isso que é necessário que você identifique e afirme que você é de origem africana. É claro que se você for fazer um teste de DNA patrilinear (que se fundamenta na descendência paterna), possivelmente o meu dará de origem europeia, porque as negras eram usadas sexualmente pelos senhores nas senzalas, e deles nasciam filhos. A humanidade é mestiça. O conceito é histórico e se baseia por conta da exploração econômica, mas biologicamente somos todos iguais. Contudo não posso abstrair, pois usam a frase do 'se todos somos iguais, racismo não existe'. Isso é inaceitável. Isso existe e tem consequências gravíssimas. No Brasil, hoje, graças a esse ideário racista se assassina aproximadamente 25.000 jovens negros por ano. Isso é uma hecatombe. Se mata como se mata barata, porque se considera que esses meninos valem menos do que os jovens brancos.

Racismo tão impregnado que se vê até mesmo do negro para o negro, quando na condição de policial, por exemplo.
ZULU ARAÚJO - Sim, o próprio negro fardado mata outro negro. Assim também foi feito no continente africano. Os zulus, de onde eu herdei o nome, na África do Sul, foram utilizados pelo apartheid para combater os Cosas. Davam armas aos zulus, que têm uma tradição guerreira fantástica, porque eram nômades. Não é diferente do que se faz hoje ao dar uma farda ao negro, e ele representa a estrutura do estado e fica impune. Mas no momento em que ele larga a farda, passa a ser igualzinho ao outro que persegue. São essas estruturas do executivo, legislativo e judiciário que dão condições para que fatos como esses ocorram, porque nós tivemos 4/5 da nossa historia sob esse regime. Isso ainda está impregnado na cabeça do brasileiro, tanto das vítimas quanto dos algozes. Tem uma frase dita pelo professor senegalês Sarra da universidade de Portugal, que traduz exatamente o que eu penso 'para vencemos, o racismo nós precisamos encontrar a cura'. Não adianta encontrar a culpa nem culpado, porque o racismo é uma doença, escravidão foi uma doença e, para vencer uma doença, só a cura. Eu quero que o Brasil se cure desse mal. O racismo é criminoso e anticivilizatório.
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