Cultura

10/11/2016 17:30

Os personagens por trás do Fundo de Cultura da Bahia

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Pessoas transitam apressadas numa praça no centro de Lisboa, de repente surge um grupo de palhaços, um picadeiro é improvisado, e logo começa o espetáculo sim senhor! Por trás dos rostos coloridos está a Trupe Nariz de Cogumelo, um grupo que nasceu em Salvador, em 2006, com a vontade de estudar a arte da palhaçaria. Depois de 10 anos de estrada, a pesquisa avançou quando ganharam o Edital de Mobilidade Artística e além-mar puderam mostrar sua arte. Larissa, uma das integrantes diz que a viagem deu um “up”. “O Mobilidade é um aprendizado de ida e volta. Entramos em contato com um publico diferente e trouxemos para Salvador o que foi bom”. E acrescenta, “Foi algo simbólico ter a primeira apresentação fora do Brasil, em Portugal, a percepção de saber lidar com outros públicos, ao mesmo tempo de
incentivar o circo, a palhaçaria, mas também a música tirando da teoria e passando para prática”, resume.


O Grupo Nariz de Cogumelo reforça a tese de que os eventos artísticos e culturais que acontecem em uma cidade são feitos por gente comprometida que acredita que shows, espetáculos, concertos, rodas literárias, intercâmbios são essenciais para a sociedade. Só que, para que muitos desses eventos aconteçam, às vezes, é necessário o financiamento público direto, ai é que entra o Fundo de Cultura da Bahia. O FCBA é um mecanismo governamental que apoia projetos através dos editais Setoriais, de Eventos Calendarizados, de Ações Continuadas de Instituições Culturais, Mobilidade Artística e Cultural e Agitação Cultural.Dando continuidade a esta série de reportagens sobre o Fundo, vamos revelar agora o perfil de alguns proponentes contemplados nos diversos editais já citados acima.

Este ano artistas dos mais variados segmentos culturais foram beneficiados com o Edital de Mobilidade Artística e Cultural. Músicos, intérpretes, dançarinos, artistas circenses dentre outros puderam trocar experiência, estudar e divulgar seus trabalhos dentro e fora do país.

Direto da cena soteropolitana para a Europa, a banda de death metal, Escarnium, esteve durante o mês de outubro na turnê “Funeral Rites Europe Tour”, com apresentações na Alemanha, Bélgica, Itália, Eslovênia e Holanda, com recursos do FCBA.

Já a cantora Inaicyra Falcão, com 30 anos de carreira, também foi contemplada neste edital, com o projeto Encontro Etnolírico Destino São Paulo, realizou em setembro um intercâmbio cultural com o grupo paulista Runsò. “O Mobilidade Artística é muito importante porque nós artistas, muitas vezes, não temos dinheiro para executar nossa arte”, desabafa, e complementa, “Este edital é a luz para divulgar nosso trabalho. As pessoas estão sedentas para apreciar coisas diferentes, e o edital possibilita esta iniciativa. Não tenho adjetivos para qualificar”.


“O Fundo chega a lugares estratégicos e longínquos, que se não fosse por isso muito dificilmente a ação estatal aconteceria. São lugares onde está presente a genuína produção cultural, ou genuína diversidade da produção cultural, tão cantada no estado da Bahia. Ações inclusive de vanguarda, que constituem a gênese da formação dessa diversidade. O Fundo de Cultura também atinge uma parte da produção cultural que não tem apelo de mercado, iniciativas que poderiam estar extintas se não houvesse uma ação estatal”, comenta o superintendente Alexandre Simões.


O surgimento dos Editais
Uma figura importante da história do Fundo e da cultura da Bahia, o diretor teatral, cenógrafo e dramaturgo Marcio Meirelles, criador do Bando de Teatro Olodum, e atual diretor artístico do Teatro Vila Velha enaltece a ferramenta.

“Logo que fui nomeado para a secretaria da cultura, as ações que antes eram executadas por ONGs passaram a ser atividade da SecultBA. Criamos com a secretaria de Fazenda e a Procuradoria Geral do Estado, o programa de apoio às ações continuadas de entidades culturais, através de chamamento público que aumentou o número de entidades apoiadas, e ampliamos o raio de ação do Fundo adotando a ferramenta dos editais como meio democrático de distribuir os recursos, o que fez com todos os territórios de identidade da Bahia fossem beneficiados”.
Ainda segundo Marcio, além ampliar o atendimento à população com as atividades culturais apoiadas com dinheiro do Fundo, os Editais serviram para fomentar a criação e fortalecimento de empresas e produtoras culturais, dando à sociedade civil musculatura em várias áreas, como audiovisual, digital e a editorial. Sem contar o desenvolvimento da cena musical alternativa e das ações culturais Identitárias. “Demos um passo na concepção de uma rede criativa e produtiva na direção do fortalecimento do mercado das artes local, e da inserção da Bahia no mercado nacional e internacional”.


Bastidores
Um dos eventos mais esperados do ano é o Panorama Coisa de Cinema que chega a 12ª edição este ano, e que faz parte do Edital de Eventos Calendarizados com foco na promoção e divulgação de produções audiovisuais. O Festival acontece em Salvador e Cachoeira, no Recôncavo Baiano, e traz mostras competitivas (local, nacional e internacional) e oficinas.


Para o coordenador e idealizador do ‘Coisa de Cinema’, o cineasta Cláudio Marques, o Calendarizado é o edital que dá tranqüilidade e uma segurança ao produtor que antes não existia. "Em outros estados, onde não há essa modalidade, existe uma dificuldade muito grande em ‘prever’ o ano seguinte. Aqui, conseguimos potencializar muito o Panorama, ter um alcance que não tínhamos. Já existe um novo edital para mais três anos, e o meu desejo é que a ideia se expanda para outras áreas”.


Traduzindo: os Editais Calendarizados foram criados para incentivar a realização de atividades culturais que tenham regularidade, garantindo estabilidade, e também a formação de um calendário voltado aos diversos segmentos da cultura. O que sem sombra de dúvida é reconhecido pelos proponentes responsáveis pelos projetos quem são aprovados em âmbito geral.


Um dos projetos de maior sucesso do edital Agitação Cultural foi a Exposição Brinquedos à Mão - Sálua Chequer, que aconteceu no Palacete das Artes em Salvador e atraiu mais de cinco mil visitantes que puderam relembrar a infância diante de miniaturas reproduzidas a partir das memórias afetivas do ser humano.


Um projeto que mobilizou o interior da Bahia foi o VI Festival de Cinema Baiano - o FECIBA. “Com ajuda do edital, difundimos o audiovisual e tiramos do eixo da Região Metropolitana. Com mesas de debates e oficinas conseguimos formar público para o cinema no interior”, narra a proponente Cristiane Vilas Boas.


No subúrbio ferroviário de Salvador, o projeto Histórias em Plataforma deu trabalho para ser desenvolvido e deixou saudade. A proponente Érica Lopes diz que as apresentações juntaram em torno de 200 pessoas. “Eu moro no subúrbio ferroviário e vi pessoas que nunca foram ao teatro comparecendo. A partir do financiamento, conseguimos montar o espetáculo e manter o nosso grupo”, comemora.


Outro projeto importante foi O Beco Ocupado, realizado num espaço de resistência política, o Beco dos Artistas, no Garcia, bairro boêmio de Salvador. “Foi um projeto super bonito e potente, em que reunimos artistas ligados à luta LGBT. Conseguimos sinalizar questões que Salvador precisa resolver”, desabafa o proponente Thiago Romero.


O cantor e compositor, Lazzo Matumbi, que já lançou mão do Fundo enxerga a ferramenta como essencial para a cultura. “Qualquer tipo de incentivo do governo a cultura é super importante, principalmente se houver uma preocupação com a qualidade dessa cultura, já que a Bahia sempre foi exportadora”. O artista ainda avalia como positiva a roupagem que o governo vem dando ao Fundo. “O que as últimas gestões fizeram foi dar ao Fundo critério de escolha colocando projetos, personagens, que tem a sensibilidade da cultura no peito como marca. Eu aplaudo essa iniciativa. O secretario Jorge Portugal, é muito sensível. Como poeta e escritor vem tentando fazer a cultura na Bahia ser olhada com mais carinho e respeito, como a imagem de um povo. Algo tão poderoso como o turismo, ou o comércio. A indústria cultural é interminável, não é simples entretenimento”.

De Lazzo Matumbi a Carlinhos Brown, de Seu João do Boi, de Santo Amaro que mantém viva a tradição do Samba Chula a Roberto Mendes que estuda o gênero musical, publicações de livros, produção de longas e curtas metragens, de documentários, de espetáculos de dança, música e teatro. “O Fundo de Cultura da Bahia é uma política pública magnífica, que democratiza e republicaniza, fazendo com que as pessoas tenham um acesso justo aos bens culturais do nosso estado", conceitua o secretário Jorge Portugal.


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