Fazcultura

05/07/2018 19:00

Arte indígena é remixada por artistas residentes em aldeias na Bahia, Alagoas, Pernambuco e Sergipe

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Arte Eletrônica Indígena ​(AEI) - Oficina de criação na residência / Foto: Divulgação

Após residência artística em comunidades indígenas, obras remixadas e criadas de forma coletiva serão expostas no Museu de Arte Moderna da Bahia, em agosto.

Imagine uma cartografia sonora indígena por meio da gravação de sons de paisagens, música e histórias, ou a produção de músicas de um cantor e instrumentista indígena, a projeção de pinturas indígenas no corpo, o estímulo do diálogo transgeracional indígena por meio da produção de fotografias ou ainda cestarias e trançados usando fibra ótica, micro controladores e sensores? Essas são algumas das ideias propostas pelas residências artísticas do projeto Arte Eletrônica Indígena (AEI), que acontecem até julho em nove aldeias da Bahia, Alagoas, Pernambuco e Sergipe, envolvendo centenas de indígenas de todas as gerações.

O projeto foi idealizado pela ONG Thydêwá com patrocínio da Oi, Oi Futuro e do Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. AEI conta também com o apoio da British Academy. A lista dos 12 artistas selecionados oriundos do Brasil, Reino Unido e Bolívia está disponível no site http://aei.art.br/.

Em agosto de 2018, as obras criadas desse encontro serão exibidas no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), com uma semana de atividades e oficinas dentro do Festival AEI com a presença de mais de 12 protagonistas do projeto, entre indígenas e não indígenas. Mostras itinerantes do AEI acontecem nas próprias comunidades indígenas entre setembro e dezembro, dentro da proposta do MAM-Expandido.

O AEI é um programa de vanguarda e inovação que promove a produção colaborativa e co-criada entre diferentes artistas e indígenas de diferentes povos. Muitas das iniciativas selecionadas abordam linguagens artísticas ainda não nomeadas, expressões híbridas, fusão de suportes, e a convergência das tecnologias analógicas e digitais, potencializando a expressão da vida.

As comunidades indígenas que estão recebendo os residentes são Karapotó Plakiô / São Sebastião – AL; Kariri-Xocó / Porto Real do Colégio – AL; Pankararu / Tacaratu – PE; Pataxó Dois Irmãos / Prado – BA; Pataxó Trambuco / Porto Seguro – BA; Pataxó Hã Hã Hãe / Pau Brasil – BA; Tupinambá de Olivença / Ilhéus – BA, Xocó / Porto da Folha - SE e Aldeia do Cachimbo / Itapetinga - BA.

Entre os objetivos do projeto AEI estão: promover intercâmbios das expressões culturais entre artistas e indígenas, nos âmbitos da Bahia e do mundo; incentivar a inovação e o uso de novas tecnologias em processos culturais e artísticos; valorizar a diversidade artística e cultural em diálogo.

"Estar entre os 34 projetos aprovados na Seleção Nacional de Projetos Culturais da Oi Futuro, reforça a seriedade e importância do trabalho que a Thydêwá vem realizando nos últimos anos em prol do fortalecimento da causa indígena. São sempre projetos inovadores, criativos e que provocam toda a equipe envolvida. No caso do AEI, provoca os artistas que farão as residências, a saírem do lugar comum e pensar de forma mais colaborativa e criativa. É um desafio e uma diversão trabalhar num projeto tão rico em criatividade e provocações", ressalta o produtor executivo do AEI, Tiago Tao.

Um dos artistas selecionados, Naum Bandeira, explica que pretende introduzir o tema da arte rupestre para a comunidade do ponto de vista teórico, depois vai fazer uma releitura plástica. “A expectativa é a melhor possível, tenho ancestrais indígenas e já conheço o trabalho da Thydêwá há vários anos. Essa proposta é pertinente pois a cultura indígena continua atual e trazer ela para o Museu de Arte Moderna da Bahia, que é o local ideal para uma exposição de arte contemporânea, da visibilidade às trocas artísticas que vamos construir ao longo do projeto”.

Durante a residência a artista boliviana Aruma/Sandra de Berduccy pretende trabalhar em colaboração com pessoas da aldeia que possuam uma prática artesanal e estejam familiarizados com os processos dos materiais locais, como cestarias e trançados. Segundo a artista, “inicialmente, se propõe realizar experiências simples, relacionadas a visualizar a energia e a eletricidade, que nos rodeia. Seguida de uma introdução a materiais eletrônicos e, finalmente, a criação de obras onde se combinarão conhecimentos, processos e materiais tradicionais com materiais pouco usuais como fibra ótica, micro controladores e sensores”. O presidente e fundador da ONG Thydêwá (www.thydewa.org), Sebastian Gerlic, destaca a relevância do projeto para a exaltação da diversidade. “Para a Thydêwá é uma alegria muito grande iniciar esse projeto pois há mais de 10 anos facilitamos essa interação entre artistas e indígenas e vice-versa, promovendo o diálogo e a co-criação, na intenção de que as mensagens produzidas através dessa diversidade de sentimentos e ações possam ser espalhadas pelo mundo. Por que justamente com esse tipo de mensagem que conseguimos superar as divergências, somar na diversidade e entender que somos todos um”.

O AEI tem uma equipe curadora internacional de sete pessoas, entre elas a Dra. Thea Pitman da Universidade de Leeds (Reino Unido) que está também envolvida no projeto como investigadora, contando com o apoio da British Academy. Thea comenta que “o AEI é uma iniciativa emocionante, estou na expectativa da diversidade de resultados e de como eles vão atuar no Festival no MAM em agosto. Estou especialmente interessada em pesquisar de que formas a arte digital pode colaborar em expandir as mensagens indígenas e como os processos colaborativos podem enriquecer a todos os participantes”. Thea está atualmente buscando montar uma mostra do AEI no Reino Unido.

FAZCULTURA – Parceria entre a SecultBA e a Secretaria da Fazenda (Sefaz), o mecanismo integra o Sistema Estadual de Fomento à Cultura, composto também pelo Fundo de Cultura da Bahia (FCBA). O objetivo é promover ações de patrocínio cultural por meio de renúncia fiscal, contribuindo para estimular o desenvolvimento cultural da Bahia, ao tempo em que possibilita às empresas patrocinadoras associar sua imagem diretamente às ações culturais que considerem mais adequadas, levando em consideração que esse tipo de patrocínio conta atualmente com um expressivo apoio da opinião pública.

ARTISTAS SELECIONADOS NO AEI

Davy Alexandrisky – Niterói/RJ

Nome da residência: Gerações de imagens
Local e período da residência: Aldeia Dois Irmãos – 04 a 13 de julho de 2018
Artista: Davy Alexandrisky – Niterói/RJ
Perfil artístico: Desde que empunhei profissionalmente uma câmera, em 1968, já se passaram 47 anos. Foi um longo percurso profissional pela publicidade; fotojornalismo; foto industrial e social; passando pelo magistério de fotografia, formal, em Faculdades de Comunicação – Gama Filho e Federal Fluminense – e livre – MAM – Museu de Arte Moderna RJ, SESC, Sociedade Fluminense de Fotografia. Fotografia estática e fotografia de vídeo: institucional, instrucional e videoarte.
Perfil da residência: Estimular o diálogo transgeracional a partir da produção de imagens. Os indígenas jovens fotografam a vida dos indígenas idosos, enquanto os idosos farão o mesmo em relação aos jovens; brincando de “Caçar Imagens”. Ao final de cada “caçada” projetaremos as imagens produzidas e, em roda, todos somos um na conversa.

Tito Vinícius – Salvador/BA
Nome da residência: Índiofuturismo
Local e período da residência: Itapuã / Tupinambá de Olivença - Ilhéus – BA – 30 de junho a 1 de julho e de 06 a 09 de julho
Artista: Tito Vinícius – Salvador/BA
Perfil artístico: Pesquisador de sensações sonoras. Músico soteropolitano, tecladista, arranjador, produtor musical, compositor e DJ. Teve contato com o mundo musical desde cedo. Começa a trilhar sua carreira profissional, atuando em bandas baianas de diversos estilos musicais e trabalhando com artistas da Bahia e do cenário nacional.
Perfil da residência: Absorver a atmosfera sonora da tribo Tupinambá e produzir um EP com quatro temas misturando elementos eletrônicos, indígenas e os elementos da natureza é a intenção do artista. Além de produzir o artista Iaru Tupinambá.

Oscar Octavio ‘Ukumari’ – Santa Cruz de La Sierra/Bolívia
Nome da residência: Cartografia Sonora Pataxó Trambuco
Local e período da residência: Pataxó de Barra Velha/BA – 09 a 20 de julho de 2018
Artista: Oscar Octavio ‘Ukumari’ – Santa Cruz de La Sierra/Bolívia
Perfil artístico: Estou interessado em relacionamentos, na capacidade de gerar vínculos não apenas entre arte e sociedade ou objeto e sujeito, meu trabalho adentra-se nas relações entre as forças e as vontades da matéria e do ser no meio ambiente. Acredito em uma Escultura Social capaz de transformar e produzir consciência.
Perfil da residência: A minha proposta é realizar uma cartografia sonora, através da gravação de paisagens sonoras, música e história locais. Uma experiência, uma viagem com a comunidade através dos sons das suas histórias e mitos. O trabalho, com a Aldeia Pataxó Trambuco será um processo de introspecção através de uma instalação sonora que será feita com todos os registros em um formato de som envolvente. Afinal, nossos sentidos são apenas especializações da pele, daquilo que nos circunda e divide nosso ser interior com o exterior.

Paulo Cesar Teles – Campinas/SP
Nome da residência: Árvore dos desejos
Local e período da residência: Pataxó Hãhãhãe/ Pau Brasil – BA – 10 a 17 de julho
Artista: Paulo Cesar Teles – Campinas/SP
Perfil artístico: Paulo César Teles é artista multimídia (midiartista) natural de Bauru – SP com mais de 30 anos de atuação nos campos do audiovisual e da arte tecnológica e trabalhos exibidos em mais de 10 países. Atualmente integra suas obras a ações coletivas na produção de poéticas transculturais por meio de fusão entre expressões hi-tech + low-tech. É professor do Instituto de Artes da Unicamp na área de Arte e Tecnologia nos cursos de Artes Visuais e Midialogia.
Perfil da residência: “Árvore dos Desejos” é uma instalação sensorial interativa e transcultural que é realizada por meio de workshops de arte e tecnologia que promove a educação pela arte. A natureza ancestrofuturista deste trabalho se expressa por meio de uma releitura de uma lenda ancestral japonesa acerca de uma árvore com poderes para realizar os desejos escritos nela pendurados.
Os participantes são levados a construir uma escultura em forma de árvore, levar as crianças a desenhar e/ou escrever e gravar em seus principais desejos, compor músicas e gravar os instrumentos em separados, anexar sensores de aproximação com interface controladora.
Este processo promove inclusões de mão dupla no campo da arte tecnológica “high tech + low tech” por integrar expressões audiovisuais digitais à manufaturas e expressões musicais nativas e/ou ancestrais. Estas atividades envolvem reciclagem, desenhos, construção escultural, música interativa e interatividades audiovisuais a base de sensores de aproximação.

Sandra de Berduccy – Cochabamba/Bolívia
Nome da residência: Pulsação
Local e período da residência: Aldeia do Cachimbo – Camacam Imboré/Tupinambá BA – 12 a 24 de julho
Artista: Aruma/Sandra de Berduccy – Cochabamba/Bolívia
Perfil artístico: Sou artista-pesquisadora, exploro e experimento com a relação entre natureza, processos de tecelagem tradicional -como tecnologia e fenomenologia- e diferentes linguagens das novas mídias. Criando obras em diversos formatos onde práticas ancestrais são relacionadas à energia transformada em luz e cor.
Perfil da residência: Trabalharei em colaboração com pessoas da aldeia que possuam uma prática artesanal e estejam familiarizados com os processos dos materiais locais. Inicialmente, se propõe realizar experiências simples, relacionadas a visualizar a energia e a eletricidade, que nos rodeia. Seguida de uma introdução a materiais eletrônicos e, finalmente, a criação de obras onde se combinarão conhecimentos, processos e materiais tradicionais com materiais pouco usuais como fibra ótica, micro controladores e sensores.

Sheilla P. D. de Souza e Tadeu dos Santos – Maringá/PR
Nome da residência: Lugar inespecífico
Local e período da residência: Itapuã – Povo Tupinambá – 16 a 22 de julho de 2018
Artista: Sheilla P. D. de Souza e Tadeu dos Santos – Maringá/PR
Perfil artístico: O Coletivo Kókir é formado por Sheilla Souza e Tadeu dos Santos, ambos artistas visuais, descendentes de indígenas da Bahia e do Paraná e integrantes da Associação Indigenista ASSINDI – Maringá (PR). Kókir significa fome na língua Kaingang, potencializando a vontade de mistura: entre etnias diferentes, cidade e natureza, arte indígena e contemporânea.
Perfil da residência: A proposta do Coletivo Kókir visa a criação compartilhada de colagens digitais entre o coletivo, os Tupinambá de Itapuã na Bahia e os Kaingang do Ivaí no Paraná. Buscamos estabelecer conexões para pensarmos juntos sobre as possibilidades de criação que problematizem as fronteiras entre territórios, representações e sistemas e culturais. Algumas das propostas para as colagens são transformações efetivas, como a reivindicação de nomeação de uma rua com o nome Kaingang no bairro Jardim Tupinambá, em Maringá (PR). A ação integra a proposta do AEI e foi apresentada na câmara dos vereadores de Maringá em 22 de maio de 2018.

RESIDÊNCIAS JÁ REALIZADAS

Bruno Barbosa Gomes – Baturité/CE

Nome da residência: A terra que nós somos
Local e período da residência: Karapotó, município de São Sebastião/Al – 07 a 18 de junho
Artista: Bruno Barbosa Gomes – Baturité/CE
Perfil artístico: Bruno Gomes é ilustrador, escritor, tatuador e ainda toca flautas de vez em quando. Sua paixão é conectar imaginação e sentimento na criação de imagens que contam histórias.
Perfil da residência: Na visão indígena, a terra nunca foi separada de nós mesmos. A terra, além de fornecer alimento e matéria prima, também carrega toda a memória, a cultura e a espiritualidade de um povo. A proposta aqui é retratar estes elementos em ilustrações animadas elaboradas durante oficinas com os jovens da aldeia para depois projetá-las sobre o corpo deles, fazendo um registro fotográfico e audiovisual. Trata-se de uma ampliação do conceito de pintura corporal, com o uso da tecnologia, para eles contarem suas histórias de luta e resistência sobre sua própria pele.

Nicolas Salazar Sutil – Londres/Reino Unido
Nome da residência: Eles estão escutando
Local e período da residência: Kariri Xocó/ Porto Real do Colégio – AL – 4 a 14 de junho.
Artista: Nicolas Salazar Sutil – Londres/Reino Unido
Perfil artístico: Nasceu em Buenos Aires (1976), é um artista e pesquisador de performance digital no Reino Unido / Chile. Seu trabalho, que combina arte do movimento e tecnologia digital, foi exibido e premiado internacionalmente.
Perfil da residência: “Eles estão escutando” foi uma residência artística realizada por Nicolas Salazar Sutil na aldeia Karirí-Xocó (Porto Real do Colégio), em junho de 2018. O trabalho concentrou-se no rio Opara (São Francisco), que é um dos focos da comunidade Kariri-Xocó. O rio é uma das principais fontes de sustento, memória e cultura.
Três “site-specific performances” foram realizadas durante esta residência. Essas performances exploraram a quietude, a postura corporal, e o uso do espaço (proxêmica) para simbolizar a recuperação de terras, resiliência e enraizamento.
Com base na representação das entidades fluviais e animais encontradas na tradicional dança local (toré), a residência também explorou o modo como a natureza é incorporada no movimento físico, e ritmo e o canto. O povo Kariri-Xocó acredita que eles são rio, que o rio flui através deles, e que o rio é uma fonte de emoções, sonho e conhecimento. E por isto que performance ativa a memória e desencadeia uma conexão emocional entre corpos que bebem rio, que sentem rio – que cantam sobre o rio, e dançam ao ritmo do rio.

Naum Bandeira – Salvador/BA
Nome da residência: Pinturas rupestres
Local e período da residência: Xokó - Porto da Folha/SE – 11 a 15 de junho de 2018
Artista: Naum Bandeira – Salvador/BA
Perfil artístico: A insatisfação e a inquietude impulsionaram minha verve artística para a busca de uma identidade estética genuinamente brasileira
Perfil da residência: Introduzir o tema da pintura rupestre, da arte ancestral, na comunidade indígena através de imagens e conteúdo teórico da pesquisa do artista e posteriormente desenvolver uma oficina com resultado pictórico.

André Anastácio e Alberto Harres – Rio de Janeiro/RJ
Nome da residência: A Voz da Terra Pankararu
Local e período da residência: Aldeia Pankararu /Tacaratu – PE – 15 a 22 de Junho
Artistas: André Anastácio e Alberto Harres – Rio De Janeiro/RJ
Perfil artístico: Nossa vivência e criação artística mescla arte, tecnologia e natureza com intenção de produzir artefatos híbridos; e experimenta tecnologias interativas como plataforma para mediar novas formas de relação e afeto dentro das dinâmicas sociais.
Perfil da residência: A proposta do projeto tem a intenção de desenvolver artefatos eletrônicos sonoros que possibilitem a escuta, amplificação e produção de memória na cultura indígena. Este artefato será co-criado com indígenas da Aldeia Brejo dos Padres, e pretende mesclar a tradição ancestral Pankararu com tecnologias digitais de comunicação e armazenamento de informação. O dispositivo tecno-indígena consiste em um mini-computador (raspberry pi) com a capacidade de gravar áudio, para posteriormente armazenar e executar o conteúdo automaticamente na web e em outro dispositivo emissor. Esse sistema será acoplado e montado dentro de objetos de cerâmica construído por mulheres indígenas Pankararu.
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