Espaços Culturais

08/07/2019 11:20

Baiano Assis Valente é tema de musical que revela magnitude de sua obra

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Foto: Reprodução

Carmem Miranda gravou mais de 20 músicas dele, os Novos Baianos encantaram o país com “Brasil Pandeiro”, de sua autoria, e com certeza a maioria dos adultos de hoje cresceram ouvindo as canções “Boas Festas” (Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...) e “Cai Cai Balão”, duas das suas obras mais executadas. Isso explica porque o baiano Assis Valente (1911–1958), apesar de pouco conhecido, ocupa lugar de destaque na música popular brasileira e foi o escolhido para estrear o projeto “Nossa Gente”, que em julho leva aos palcos um merecido musical em sua homenagem.

“Nossa Gente – Assis não fez Bobagem” faz três apresentações gratuitas, sessão dupla em Santo Amaro – cidade natal do artista -, no Teatro Dona Canô, e uma em Salvador, no Teatro Sesc Pelourinho, nos dias 12, 13 e 17 de julho, respectivamente, às 19h30. A temporada de espetáculos tem realização da R.Ventura Comunicação e conta com patrocínio da Companhia de Gás da Bahia - Bahiagás e do Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda. Idealizado pela cantora e compositora Fá Ribeiro, o musical tem direção teatral de Eddie Marques, direção artística de Maria Antonia Bandeira e direção musical de Lula Gazineu.

No palco, as cenas giram em torno da vida e a obra de um artista pouco conhecido em relação à magnitude da sua obra, um homem de múltiplos talentos, que tinha a música como sua grande paixão e que viveu muitos dilemas existenciais, o que o levou ao suicídio com apenas 46 anos, quando já vivia no Rio de Janeiro. Sua partida para o Rio veio do sonho de morar na “cidade maravilhosa”, onde se sustentou por um tempo fazendo desenhos para as revistas Shimmy e Fon-Fon e, depois, como protético. Com incentivo do compositor, cantor e pintor Heitor dos Prazeres (1898-1966), passou a reconhecer seu dom na escrita e assim se iniciou como compositor.

Negro, nordestino e artista, Assis Valente enfrentou opressão e preconceitos, inclusive dentro da família, mas nunca desistiu de sua carreira musical. Usou de sua persistência para chegar até Carmem Miranda – por quem nutriu uma admiração interpretada até como uma grande paixão – e fez da alegria uma arma para lidar com seus conflitos internos e com sua tendência à autodepreciação. Mesmo tendo sempre um sorriso no rosto – o que era sua marca -, Assis trouxe temas sociais, como o racismo, para suas canções, e tentou suicídio duas vezes antes da terceira investida que o levou à morte.

“Ele utilizava de uma ironia incomparável para escrever suas canções, era muito brincalhão e usava o linguajar do povo. Também retratava com maestria o cotidiano da época, marcada pela valorização de produtos importados e termos estrangeiros. Exemplos de sátira à pequena burguesia que começava a adotar costumes e chavões norte-americanos são as canções Good bye Boy, que foi gravada com sucesso por Carmem Miranda, e Tem Francesa no Morro,  que ficou famosa na voz de Aracy Cortes”, conta Fá Ribeiro, idealizadora do espetáculo.

Em Cena - O musical “Nossa Gente – Assis Não fez Bobagem” traz à cena 16 canções de Assis Valente executadas ao vivo por uma banda que permanece no palco durante todo o espetáculo, que dura 1h20. O fio condutor do roteiro é uma conversa entre o compositor e a sua consciência após a morte, que por vezes sugere um diálogo entre ele e um anjo da morte, trazendo à tona suas memórias, passagens de sua vida, pessoas que dela fizeram parte, sendo cada situação um convite para a execução de uma de suas músicas.

“A escolha das canções deixa clara a diversidade de sentimentos presente nas músicas de Assis, os altos e baixos de sua vida, a sua alegria e também a sua melancolia, e elas ganham interpretação e arranjos compatíveis com o momento em que aquela obra foi composta. Trechos das canções também são usados no próprio diálogo que alinhava o espetáculo, de forma que a direção teatral e a musical estão em total interação”, realça o diretor musical do espetáculo, Lula Gazineu.

“A ordem cronológica da vida de Assis foi invertida no espetáculo, sendo a morte dele a cena inicial, no intuito de propor uma retrospectiva de sua vida, encenada por dois atores que interpretam o compositor, um que dialoga com o Anjo da Morte, outro que protagoniza as lembranças dele, e toda a conversa caminha no sentido de afirmar: Olha aí Assis o quanto a sua vida valeu a pena”, conta o diretor teatral Eddie Marques.

Ao todo seis cantores dão voz às músicas, sendo um deles o ator e cantor Pedro de Rosa Morais, que interpreta Assis nas suas lembranças. Também dá vida a Assis o ator Everton Rocha, que dialoga com o Anjo da Morte, por sua vez interpretado pela atriz Maria Antônia Bandeira, também diretora artística do musical. Fá Ribeiro assina a concepção do projeto e também atua como cantora e roteirista musical e teatral. A sapateadora e bailarina Raquel Cavalcanti assina as coreografias.

FAZCULTURA – Parceria entre a SecultBA e a Secretaria da Fazenda (Sefaz), o mecanismo integra o Sistema Estadual de Fomento à Cultura, composto também pelo Fundo de Cultura da Bahia (FCBA). O objetivo é promover ações de patrocínio cultural por meio de renúncia fiscal, contribuindo para estimular o desenvolvimento cultural da Bahia, ao tempo em que possibilita às empresas patrocinadoras associar sua imagem diretamente às ações culturais que considerem mais adequadas, levando em consideração que esse tipo de patrocínio conta atualmente com um expressivo apoio da opinião pública.

Serviço

Espetáculo “Nossa Gente – Assis não fez bobagem”
Apresentações: 12 e 13 de julho, às 19h30, Teatro Dona Canô – Santo Amaro
17 de julho, às 19h30, Teatro Sesc Pelourinho – Salvador
Entrada gratuita
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