Cultura

16/09/2020 10:20

Mestres Navegantes comemora 10 anos de existência com lançamentos de discos e filmes nas plataformas digitais


Para celebrar os 10 anos do projeto Mestres Navegantes, o músico Betão Aguiar, com patrocínios da plataforma Natura Musical e do Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, prepara uma série de lançamentos marcados a partir de 15 de setembro. Este novo pacote “Mestres Navegantes” contempla uma coletânea - MESCLA BR - com sete músicas das diferentes edições produzidas por nomes como Curumin, Pio Lobato, Strobo, Felipe Cordeiro e Mahal Pita; o curta “Chegança, no jardim das belas flores”, sobre as Cheganças femininas de Arembepe e Saubara, BA; a chegada dos 28 discos do projeto às plataformas de streaming. E, ainda, o primeiro longa-metragem do acervo, que acompanha os blocos Ilê Aiyê, Bankoma e o Cortejo Afro, durante os bastidores do Carnaval de 2020. Segundo Betão, diretor do documentário, o objetivo é estrear no circuito de festivais primeiro e depois realizar o lançamento oficial.  

São Luiz do Paraitinga (SP), Cariri (CE), Pará, Bahia fizeram parte da jornada investigativa musical de Betão Aguiar nos últimos dez anos. Para além da música, ancestralidade, herança, nossas raízes indígenas e afrobrasileiras, riqueza e diversidade cultural, passado, presente e futuro estão impressos nas canções que foram entoadas, nas imagens filmadas e fotografadas desses mestres que falam de um Brasil profundo e verdadeiro. “O projeto Navegantes é um projeto importantíssimo, até porque eu acho que o Brasil tem essa dificuldade em registrar a sua história, sua cultura. Acontece, mas são poucos os registros. E o Mestres Navegantes faz esse registro de uma cultura popular que está sempre em movimento, sempre mudando”, diz Curumin, músico que acompanha de perto o projeto desde o início.  

Para o MESCLA BR, um encontro entre gerações contemporâneas, paulistas, cearenses, paraenses e baianos: mestres da cultura popular emprestam suas cantigas para serem reinterpretadas por artistas e produtores que admiram e entendem que neles se encontram o fundamento da cultura brasileira. “Não houve um recorte específico, mas escolhi os nomes pensando nos diferentes sabores de produção, como cada um poderia vestir a música e nos encontros que se dariam a partir dela”, diz Betão. Como o de Mestre Curió, por exemplo, e o produtor multimídia Mahal Pita, que escolheu para produzir a música “Seu Pastinha”, presente na mais recente edição dedicada à Bahia, no disco “Capoeira Angola 1”. “Foi uma dádiva e um desafio. Uma canção quase que centenária, cantada de forma irretocável. Quando ouvi senti que algo me reencontrava, sincronizou com absolutamente tudo o que estava fazendo, com a minha nova pesquisa em torno do Samba Reggae e do Pelourinho. Mestre Curió, um griô de voz inconfundível, é praticamente um toaster jamaicano. A partir daí só tentei deixar a música eletrônica mais perto dos nossos mestres, ancestrais que são”, conta Mahal. Também na ponte entre Ceará e Pará, em um diálogo tão recorrente e aspiracional entre artistas dos dois estados. Felipe Cordeiro e Klaus Sena escolheram “Forró do Remoído”, da Banda Pife Carcará, enquanto o duo Strobo optou por visitar o “Bendito de entrada” dos Penitentes e Inselenças do sítio Cabeceiras, de Barbalha. Um dos encontros mais inusitados do álbum que mescla os cantos religiosos dos mestres cearenses com o vigor dançante das guitarradas digitais características da banda de Belém. 

O filme “Chegança No Jardim das Belas Flores”, dirigido por Betão Aguiar e Bruno Graziano, é uma homenagem à força das mulheres baianas e sua resistência, aqui representadas por Mestre Fiinha, da Chegança Feminina Barca Nova de Saubara e por Dona Bete, da Chegança Feminina de Arembepe - dois grupos femininos de Marujada não eram aceitos pelos homens. Existem no Brasil centenas de grupos e mestres que preservam esta encenação, que nos remete ao tempo dos marujos, suas histórias, batalhas e conquistas nos mares da colonização portuguesa. “Eu espero que elas não deixem parar. Hoje estou aqui, mas amanhã posso não estar. Então, que minha neta faça o meu papel de mestre ou de general. E que puxe também suas filhas e netas. Que elas dêem continuidade, não deixem parar. É isso o que eu espero do futuro”, diz Mestre Fiinha. Em 2018, a Chegança foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Estado da Bahia. 

As mais de 640 faixas presentes nos 28 discos lançados durante essa década serão finalmente disponibilizadas nas plataformas de streaming, por meio de uma parceria com a Altafonte. Até então, todo este documento musical - um dos maiores acervos artísticos da cultura popular brasileira - estavam disponíveis gratuitamente no Soundcloud do projeto.  


Sobre o projeto Mestres Navegantes – Em 2008, Betão Aguiar começou a materializar esse sonho pessoal com as primeiras pesquisas de levantamento e mapeamento que resultaram em dois pilotos para o projeto, os discos Reisado do Mestre Aldenir (2009) e Terreiradas Cariri (2010). A primeira edição oficial, que registrou mestres e gurpos durante a festa do Divino Espírito Santo de São Luiz do Paraitinga de 2010, só veio a ser lançada em 2011, já em parceria com o Natura Musical, e, para que mais pessoas pudessem ter acesso às riquezas culturais desse Brasil, que se inspira no cotidiano, nas festas religiosas, nos padroeiros e nos ciclos de plantio e colheita para celebrar e fazer música nas comunidades, Betão teve a ideia de disponibilizar gratuitamente na internet as gravações do projeto, fato que viria a gerar um dos maiores acervos artísticos da música de cultura popular brasileira, inteiramente online, com mais de 640 registros disponíveis.  

A extensão e qualidade técnica da coleção acabaram chamando a atenção de especialistas da área da cultura, acadêmicos e, principalmente, da imprensa. Iniciativa comparada às Missões de Pesquisas Folclóricas, de Mario de Andrade, o projeto Mestres Navegantes foi eleito, em 4º lugar, entre os 10 projetos de música mais importantes de 2013 pelo jornal The New York Times.  


FAZCULTURA – Parceria entre a SecultBA e a Secretaria da Fazenda (Sefaz), o mecanismo integra o Sistema Estadual de Fomento à Cultura, composto também pelo Fundo de Cultura da Bahia (FCBA). O objetivo é promover ações de patrocínio cultural por meio de renúncia fiscal, contribuindo para estimular o desenvolvimento cultural da Bahia, ao tempo em que possibilita às empresas patrocinadoras associar sua imagem diretamente às ações culturais que considerem mais adequadas, levando em consideração que esse tipo de patrocínio conta atualmente com um expressivo apoio da opinião pública.  



Ficha Técnica MESCLA BR 

1. Seu Pastinha | Mestre Curió + Mahal Pita 

2. Bendito de entrada | Penitentes do Sítio Cabeceiras + Strobo 

3. Um doce | Congada Mirim de Ilhabela + Curumin & Ze Nigro 

4. Forró do Remoído | Banda Pife de Carcará + Felipe Cordeiro & Klaus Sena 

5. Cantiga para Oxum 2 | Ilê Axé Alaketu Oya Funan + Junix11 & MayHD 

6. Ladainha | Comitiva de São Benedito de Bragança + Pio Lobato 

7. Cantigas para Iansã | Ilê Axé Alaketu Oya Funan + Raffa Muñoz 
 
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