Carnaval da Cultura 2017


Evoé, Momo! Alegria, alegria! Este ano o Carnaval da Cultura homenageia os 50 anos do Tropicalismo, movimento que fez uma verdadeira revolução no Brasil e que tem tudo a ver com a folia momesca, especialmente a baiana. Daqui da Bahia saíram seus principais líderes e um deles, Gilberto Gil, está nos dando a honra de participar da abertura do Carnaval do Pelô, ao lado do companheiro das lides tropicalistas José Carlos Capinan. Gil foi quem, no início de 1967, teve a ideia original de mobilizar compositores e cantores para repensar e mudar tudo na produção de música popular no país. E Caetano Veloso tomou a frente da luta: “Eu organizo o movimento/ Eu oriento o carnaval”, diz sua canção-manifesto “Tropicália”.

“Atrás do trio elétrico/ só não vai quem já morreu” – é o refrão do frevo de Caetano composto após a ditadura militar abortar o movimento e que se tornou um hino da folia baiana. Sim, carnaval da Bahia e Tropicalismo têm tudo a ver, um se alimentou do outro e ambos tocam profundamente na corda sensível da cultura brasileira. A Tropicália quebrou paradigmas não só na música popular, mas também em outras linguagens, como as artes plásticas, o teatro e o cinema. Mudou comportamentos e costumes, abriu a mente das pessoas para ver o mundo sem compartimentações rígidas, sem preconceitos e incorporando as diferenças. Contribuiu decisivamente para a gente interpretar o Brasil de maneira fecunda.

Este carnaval, em comemoração à data, está realçando sua essência tropicalista. Na decoração, por exemplo: as cores fortes e o exagero estético, marcas do Tropicalismo, dão o tom das peças presentes no Terreiro de Jesus, nos largos e ruas do Pelô. Na cena contemporânea da Bahia, muitos artistas, como Carlinhos Brown, BayanaSistem e Saulo, já captam muito bem os sons dos ecos tropicalistas e abrilhantam a festa mais uma vez. A mistura do tradicional com o experimentalismo de vanguarda é outra característica tropicalista que também faz parte da cena na folia baiana. Já é uma tradição a presença de grandes artistas de diferentes gerações, além de muitos representantes dos mais variados estilos musicais. O democrático Pelô tem espaço para o hip-hop, pop rock, reggae, afro, afro pop, arrocha, guitarra baiana, orquestra, frevo, os ritmos dos antigos carnavais e muitos outros sons que agitam públicos de todos os gostos, gerações e vibes.

Este ano temos mais três comemorações que também se ligam ao tema tropicalista. Festejamos os 70 anos de Moraes Moreira, um dos novos baianos que deram continuidade à obra dos “velhos” baianos; personagem histórica do Carnaval da Bahia, foi ele quem inaugurou o solo vocal em cima de um trio elétrico. Comemoramos também os 30 anos de “Faraó”, o maravilhoso e emblemático samba-reggae de Luciano Gomes imortalizado pelo Olodum. Essa música é um hino que ajudou a deflagrar uma revolução sem um tiro sequer, ao irradiar para os negros de todo o Brasil uma nova forma de verem a si mesmos sem as cortinas dos mitos negativos que a ordem implantada pelos brancos criou. A valorização da negritude já fazia parte do ideário da Tropicália e é com essa perspectiva que homenageamos ainda o Carnaval Ouro Negro, criado pela SecultBA que em 2017 está apoiando 90 entidades carnavalescas; o Ouro Negro também tem um número redondo para comemorar: este ano completa 10 edições.

“A alegria é a prova dos nove” – já sentenciava o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, que tanto inspirou o movimento tropicalista. Em matéria de alegria, nós, baianos, estamos aprovados.

Jorge Portugal
Secretário de Cultura do Estado da Bahia


Recomendar esta página via e-mail: