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Na Mídia / Impresso
A grande feira
Data: 27/07/2007
Fonte: Jornal A Tarde

A Feira de São Joaquim é a ligação de Salvador com sua história mais profunda, com suas raízes, sua origem e atualidade negra. Se a palavra povo tiver alguma força conceitual, ela é um dos territórios sagrados do povo de Salvador e de todo o Recôncavo. É ponto de encontro. Por ela, é possível viajar no tempo. Ir e voltar. Revisitar a velha Salvador, olhar a nova imbricada com a antiga.

A feira continua viva, com suas cores, gritos, alegria, comércio, barganha, carrinhos de mão, menino chupando manga, descascando tangerina, mastigando banana, trabalhador no balcão ou na mesinha pegando a xepa. Negra, negra feira, negra cidade, retrato da Bahia.

Ali o candomblé deita raízes, busca alimento, convive, vive. Quem é de santo está quase sempre na feira. Raízes de uma terra que, vivendo a escravidão, viu o povo negro ancorar-se em sua cultura para não morrer, para manter-se íntegro, para dizer-se de uma civilização própria, para revelar e orar para os seus orixás, misturado com Senhor do Bonfim, Oxalá. Convivem ali todas as crenças, no entanto.

Desde há muito, convivo com a grande feira.

Fiz matéria sobre o incêndio de Água de Meninos muitos anos depois do ocorrido. Era meados dos anos 70. Quem me contava a história era uma liderança calejada, marcada pela vida e pela feira – penso que lembro o nome inteiro: Francisco Porcino Julião, um negro forte, impressionante figura, fiel às suas origens, tinha o fogo nas veias, o fogo que queimara tudo, e que ele tinha convicção ter sido criminoso. Era de luta.

Mais tarde, vi-me envolvido de novo com a feira. Agora, pelas mãos de outra liderança, mais jovem: Joel Anunciação. Uma curiosa história de vida.

Fora meu aluno na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Estudava também na Universidade do Estado da Bahia. E tinha – como tem – barraca na Feira de São Joaquim.

Sustenta a família com ela. Orgulhosamente. E participei de outra luta – a da derrubada do muro. Ao lado de Anunciação, Nilton Ávila, outra importante liderança.

A história do muro revela uma concepção – a de que era necessário esconder a feira. São Joaquim, na visão dos que governavam Salvador naquele momento, era feia demais. Era preciso construir um muro e escondê-la do resto da cidade.

Foi construído. E foi ao chão. Pela ação dos feirantes, pela disposição deles em defender o seu patrimônio. Não, nunca consideraram a feira como estorvo na paisagem. Ela é a síntese mais perfeita da Salvador pobre, e negra, e alegre.

Agora, a Fundação Palmares, impulsionada por tantas lutas, e com o nosso Zulu Araújo à frente, antes com o professor Ubiratan Araújo, mostra disposição de tombá-la, torná-la um patrimônio intangível da Cidade da Bahia. Já há um cuidadoso Laudo Antropológico do professor Vicente Deocleciano Moreira, a sustentar a oportunidade do tombamento. Todos nós, os que amamos Salvador, estamos lutando por isso, com a esperança de que aconteça o mais rapidamente possível.

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