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Plug Cultura
"O Pelourinho está um bocadinho embalsamado", diz Eduardo Souto Moura
Data: 18/06/2008
Fonte: A Tarde on line

 

Reconhecido como um dos maiores arquitetos da atualidade, o português Eduardo Souto Moura, nascido na cidade do Porto, 55 anos, esteve pela primeira vez em Salvador semana passada. Ele veio à convite do Arquimemória 3, um encontro nacional sobre preservação organizado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), seção Bahia, depois de 21 anos. Em sua palestra, que encerrou a maratona de comunicações e mesas redondas do evento, Souto Moura mostrou slides dos seus projetos e explicou a metodologia que utilizou para transformar prédios malconservados ou arruinados em ambientes pensados para serem freqüentados de novo. Em entrevista exclusiva à repórter MARY WEINSTEIN, Souto Moura contou o que viu em apenas um dia e meio na Bahia. Ele disse que não gosta de ver tudo de uma só vez, e que conseguiu captar nessa rápida passagem o ambiente da cidade. Fã de arquitetos brasileiros, como Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, ele foi visitar o carioca radicado na Bahia João Filgueiras, o Lelé, e comoveu-se com a simplicidade e a genialidadedo colega. Foi à Cidade Baixa, ao Solar do Unhão restaurado por Lina Bo Bardi, e entrou em igrejas construídas por conterrâneos. Em seu discurso, ele procura desmistificar a arquitetura e conciliar o patrimônio na vida das cidades.

EDUARDO SOUTO MOURA
| É tão complexa que só fiquei com uma primeira impressão. Senti-me em casa. Percebi a
história, porque é a história da cidade portuguesa. E percebi a parte nova que é igual a todos os sítios do mundo.

AT | O que percebeu do Pelourinho?
ESM | Não posso ser desagradável com uma cidade que me convida.

Eu gostei muito de Salvador, mas acho que o Pelourinho está um bocadinho embalsamado. É um cenário. Falta a vitalidade do Centro Histórico. Está aquilo preparado para o turismo mas tem algo falso. É uma cidade efêmera. Ou são turistas que vão ver e saem. Ou são pessoas que estão ali para trabalhar e também saem. Portanto, é uma instalação, como se diz em arte contemporânea, feita com objetos históricos portugueses. Evidente que o ambiente é bonito sob o ponto de vista formal mas eu, como arquiteto, entendo a arquitetura como uma arte social e não posso pensá-la sem as pessoas e sem a vida. Porque falta esse componente de renovação. A cidade não são pedras. Tem o tecido social. As pedras foram renovadas e a parte soem cial penso que não. Não sei se estou sendo duro.

AT | E do ponto da preservação arquitetônica?
ESM | Não sei como era antes.

Percebi, visitando a parte dos quintais, que tem um conjunto de pátios interligados. Achei essas áreas muito boas. E então percebi que eram inventadas. A casa portuguesa, a cidade portuguesa, os quintais, são sempre complexos, feitos por superposições, nunca há uma intencionalidade do desenho. São somatórios.

AT | Em Portugal, é diferente?
ESM | Lá não tem essas grandes operações de recuperação. Há uma casa ou outra, individualmente, para ser restaurada. Talvez a cidade de Angra (do Heroísmo, na Ilha dos Açôres), que foi toda recuperada, seja um caso igual ao Pelourinho.

Mas em uma operação conjunta é muito difícil construir autenticidade. Porque na antiguidade não se construía o antigo, construía-se para fazer o moderno e portanto quando se quer fixar o tempo é sempre falso. A própria atitude já é falsa. Na antiguidade, renovavam-se os edifícios, destruíamse e recuperavam-se, mas para construir outros edifícios. A história é feita com templos, de igrejas que foram templos romanos, que passaram a ser conventos, que passaram a quartéis, a escolas, a museus. E nunca mais vão voltar a ser mosteiros porque já não há mais frades, nem freiras.Quando é recuperar por recuperar, a operação torna-se estetizante e é uma maquiagem.

AT| Osenhorfezumnovoestádio para Braga. Aqui, o governo pensa soem substituir o que existe. O prédio se encaixa inteligentemente em uma encosta e se coloca diante de um dique muito bonito. Foi projetado pelo arquiteto moderno Diógenes Rebouças na metade do século passado. O que o senhor diria sobre isso?
ESM | Eu acho mal. Mesmo que esse estádio não sirva para a Copa não se deve botar abaixo. Pode-se reservá-lo para treinos – como em Braga – ou para escolas, grupos esportivos.

Portanto, destruir um estádio eu acho mal porque pode servir a uma população. Para a Copa, as exigências são muito complicadas e os estádios antigos não têm nada a ver com os novos. A adaptação, as vezes, fica mais cara do que fazer um novo.

AT | O senhor construiu o metrô do Porto e aqui deve ter visto a nossa tentativa de construção.

ESM | Não vi.Vi o sistema de ligação da parte alta com a baixa. Que tem como Lisboa, o Elevador de Santa Justa. Mas o metrô é uma questão de vontade. O metrô com 37 quilômetros foi feito no Porto em sete anos. Portanto é um problema de vontade política. Fez-se o Canal de Suez, o Canal do Panamá, construíram-se as pirâmides do Egito e não se pode fazer um metrô na Bahia? Havendo vontade, a técnica resolve.

AT | A prefeitura liberou até 18 andares na orla. O que o senhor acha?
ESM | Não acho mal. O que eu acho é que tem que haver uma lei para estabelecer que quanto mais alto o edifício, mais espaço tem que deixar para os lados. Tem que adotar a regra dos 45 graus. Quanto mais alto se fizer, mais espaço tem que se ter. Assim, vai se ter menos prédios altos porque é mais caro.

Eu não tenho nada contra os prédios altos porque cada um tem a sua função. Fazer prédio alto no meio de um centro histórico é uma barbaridade. Há sítios que é preciso libertar, não ocupar terrenos.

Neste momento, estou a propor duas torres e quero fazer um parque.

E se eu baixar as torres, não há parque.

AT | E essas torres têm quantos andares?
ESM | Têm 20. É omáximoque os bombeiros deixam fazer. Porque, a partir de 20, o edifício tem que ser auto-suficiente para incêndios. Os bombeiros não chegam até em cima.

É tão caro que ninguém quer fazer mais de 20.

AT | O que o senhor acha de mais interessante na arquitetura brasileira?
ESM | Os melhores arquitetos do mundo falam português [ri]. São o Álvaro Siza, Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer. Mas não digo isso por ser patriota. Apenas gosto deles, e também do Artigas [João Vilanova], que já morreu, da escola paulista]. Portanto, eu tenho uma paixão pela arquitetura moderna brasileira que é muito diferente da européia. Eu acho que o movimento moderno foi feito para a América Latina porque funciona muito melhor com este clima e com esta vegetação. Porque não existem paredes, não existem vidros, as plantas invadem, e há sombra, há fresco. Hoje visitei o hospital do Lelé [João Filgueiras, autor dos hospitais da Rede Sarah].

É tudo que o modernismo propõe, de ligar o interior com o exterior, a natureza com a arquitetura, que na Suécia não é possível porque são menos 20 graus lá fora. Portanto a arquitetura no Brasil, na Argentina, na Colômbia, no México, funciona muito bem pela cultura e pelo clima. De certo é que o movimento moderno acabou bastante cedo ou acabou desacreditado na Europa depois da Guerra, e aqui na América Latina continuou até os anos 60, 70, e portanto é um movimento atual ainda. E penso eu que o resultado é bom. Acho que o Brasil tem grandes arquitetos e tem uma nova geração em São Paulo. Eu não conheço bem. Ainda hoje estava a dizer ao Lelé, que não sou professor, mas gostaria de convidá-lo para ir ao Porto, através da faculdade porque tem uma obra notável.

AT | Por que o senhor foi visitar Lelé?
ESM | Lelé amparava muito o trabalho do Niemeyer. A obra do hospital Sarah é lindíssima. Aquele hospital tem 18 anos e está novo.

Uma obra física e social. Isto é arquitetura.

O Lelé é uma pessoa simplicíssima. Eu fiquei comovido de o conhecer.

AT | O que mais lhe impressionou em Salvador?
ESM | A superposição das cidades.

A cidade baixa, costeira, feita no aterro, com equipamentos antigos, armazéns, o museu da Bo Bardi, os edifícios de até quatro andares.

E a cidade alta. E, entre tudo isso, as favelas.

AT | Existe uma empresa portuguesa que vai construir um hotel de 13 andares ali naquele sítio. Isso gerou uma polêmica sobre se comprometeria ou não essa superposição de que o senhor fala.

ESM | A polêmica põe em discussão.

A culpa não é deles, é de quem lhes deixa fazer. Eu não posso exigir de um empreiteiro uma função cultural. Eles têm que ganhar dinheiro e não têm responsabilidades culturais.

AT| Temque se respeitar o patrimônio histórico?
ESM | Claro. Mas isso não tem que ser um sacrifício, se não, não é patrimônio. Se é pesado, já não é patrimônio. É como ter uma avó que é muito boa para a educação das crianças. Precisamos dela. Não é preciso gastar dinheiro com patrimônio.

Gasta-se como se gasta nas estradas e nas outras coisas.

AT | O senhor entrouemalguma igreja daqui de Salvador?
ESM | Sim, na de São Francisco.

AT | E ela, que é uma das mais bem conservadas, não estaria precisando de obras? Os azulejos ali estão precisando de socorro.

ESM | Tinha o claustro, coitado.

Parecia aquela pintora mexicana.

A Frida Kahlo. As colunas todas estão com uns ferros.

AT | Costuma-se dizer que todas as cidades do mundo estão passando por problemas urbanísticos.

Que fim vão ter as cidades?
ESM | Elas não vão acabar, por mais que os ecologistas digam que têm defeitos. Eu gosto da densidade.

Gosto da massa crítica. Gosto de ter muitas livrarias, lojas para discos, restaurantes. O Júlio Cortázar dizia que não gostava do campo porque os animais passeiam crus [ri]. Eu prefiro engarrafamentos a ter viadutos. Eu sou otimista, senão, deixava de ser arquiteto.

AT | O senhor diz que não é especialista em patrimônio. Mas isso é falso, não é?
ESM | Não há especialismo em patrimônio. É uma coisa natural.

Não se tem que tratar melhor uma igreja do que um galinheiro. A atitude tem que ser a mesma. Tem que se preservar o ambiente, não é uma casa ou outra, é uma geografia.

Isso se faz tanto com o novo quanto com o antigo. Para mim, é uma coisa natural, como Deus.

Não é preciso ser religioso. O patrimônio agora é como uma religião, tem uns fundamentalistas [ri]. Não são os construtores que estão errados, são os políticos. O Brasil se preocupa com o patrimônio. Acho que as coisas portuguesas estão mais bem arranjadas no Brasil. Em Portugal, está tudo abandonado.

Lisboa não é Portugal. Santos da casa não fazem milagres. Não se pode cair na tentação de que agora temos que recuperar tudo. Temos que recuperar o que é importante.

É preciso construir patrimônio também. Senão, a época fica sem legado. O patrimônio é o legado.

Faz parte da família. É a avó. Os netos são educados pela avó, é uma instituição. Isso é um patrimônio que faz bem às crianças.

 

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